Valdemar Ferreira Ribeiro
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ANGOLA E SUA ECONOMIA - ENSAIOS SOBRE A CEGUEIRA (JS)
(Saramago – sic.: “Não somos bons e é necessário termos coragem para o reconhecer”.

Andamos em Angola de um lado para outro, em reuniões atarefadas, em palestras, em fóruns, encontros, seminários, formações, etc, viajando para dentro e para fora, em busca de soluções que venham construir uma Angola melhor., é o desejo.

Mas esquecemos ou não queremos fazer as tarefas de casa mais importantes.

Achamos que um pequeno ou médio empresário angolano ou estrangeiro , não falamos aqui de empresas grandes ou multinacionais, empresários competentes, são pessoas que facilmente aceitam a mediocridade ou o “mais ou menos”  ou facilmente são ludibriados com aparências para “inglês ver”.

Um empresário competente, escrupuloso, responsável, criativo, seja nacional ou estrangeiro, não aceita a mediocridade como padrão para um desenvolvimento sustentado.

Facilmente e rapidamente se constata que a economia angolana anda com muitos desfiles e festas decoradas com muitos balões mas estes facilmente são furados e a festa termina.

É necessário ver que o caminho para o desenvolvimento da economia angolana é fazer primeiro o trabalho de casa, antes de qualquer outra actividade. É necessário darmos o exemplo, falando mas também fazendo.

O que adianta querer que venham empresários estrangeiros ou empresários nacionais investir na economia angolana se logo em seguida as dificuldades são tamanhas que qualquer pessoa de bom senso desiste de seus empreendimentos e até se arrepende de simplesmente ter pensado nessas possibilidades que só trazem prejuízos e desgastes financeiros, mentais e físicos.

Façamos uma reflexão profunda sobre alguns dos trabalhos de casa a serem feitos com urgência e podemos começar pelos cemitérios angolanos.

Em quase todos os países, os cemitérios são lugares sagrados, respeitados e ordenados e hoje em dia praticamente todos eles têm crematórios pois são processos tecnológicos modernos e limpos para se tratarem os defuntos pois as cinzas são sagradas.

Mesmo que muita gente em Angola não aceite esta ideia de cemitérios como lugares sagrados e modernos no tratamento dos defuntos, é importante perceber que hoje em dia nos países mais desenvolvidos, os empresários mais modernos não aceitam cemitérios como os de Angola, mal cuidados, sem crematórios, sem jardins, sem caminhos por onde possam passar os caixões dos defuntos na hora de serem enterrados, sem precisar de faltar ao respeito pelo mortos ao se atravessar por cima das campas, ladrões e bêbados invadindo os cemitérios,  etc.,  cemitérios sem nenhuma modernidade.

Um empresário estrangeiro ou nacional, competente, moderno, responsável, se vier para Angola e por cá falecer, como depois volta para a sua terra natal ou como depois vai ser enterrado? Num cemitério que não é um lugar sagrado, sujo, mal cuidado, abandonado ?

Hoje em dia em qualquer lugar do planeta, quando uma pessoa falece e precisa de voltar para sua terra natal ou ser enterrado, é necessário haverem crematórios aonde os corpos falecidos são tratados com todo o respeito, embalados e facilmente podem retornar ao seu país natal de forma digna e higiénica.

Aqui em Angola sequer há caixões de chumbo aonde os corpos podem ser transportados dentro dos padrões higiénicos normais.

Outro dos trabalhos de casa a serem feitos em Angola, em todas as cidades são os cuidados com as árvores que praticamente não existem ou são mal plantadas e mal cuidadas e as podas destas árvores são feitas utilizando-se métodos errados, de tal forma que em pouco tempo os troncos das árvores ficam completamente tortos e sem copas e não desempenham sua função principal que é a estética das ruas e a sombra.

Além de não terem árvores, as ruas muitas vezes não têm passeios aonde os cidadãos possam deslocar-se a pé e possam até passear e desfrutar do caminho.

Outro trabalho de casa urgentíssimo é a geração de energia eléctrica, problema muito difícil de ser resolvido e pelos vistos vai demorar um bom tempo até conseguirmos resolver esta grande dificuldade.

Além disso, as industrias não podem simplesmente utilizar a energia eléctrica pública pois esta energia oscila muito e pode queimar máquinas e equipamentos de grande valor e por isso as empresas são obrigadas a comprar “estabilizadores” de corrente para poderem utilizar esta energia.  Um estabilizador médio, por exemplo 500 KVAs, custa cerca de cinquenta mil euros ou mais e este valor é uma sobrecarga financeira importante nos investimentos.

Um dos trabalhos de casa a serem feitos é em energias alternativas renováveis tais como a energia solar pois temos muitas horas de sol, e vamos muito atrasados pois na maioria dos países hoje em dia já há investimentos grandes em energias alternativas mas Angola pouco ou nada se fez ainda para avançar neste item e a Sonangol, em vez de desenvolver energias alternativas como a energia solar, andou a distrair-se construindo hotéis e a investir em outros negócios fora de sua vocação durante dezenas de anos, dentro e fora de Angola.

Outra tarefe de casa a fazer muito urgente, é o fornecimento de águas às residências e industrias e comércio e não parece haver uma solução à vista.

As estradas principais e secundárias continuam a ser um transtorno enorme para a economia.

A questão dos vistos de trabalho é um empecilho que tem de ser resolvido urgentemente senão a industria vai continuar emperrada e sem possibilidades de crescer.
  
A questão do câmbio, do acesso às divisas, da transferência dos ganhos de capital, a importanção de matérias-primas, etc, é um entrave impossível de ser ultrapassado pois ninguém pode construir uma industria moderna e mantê-la em funcionamento se não tiver acesso fácil à tecnologia e aos técnicos.

Em Angola quase não existem espaços de cultura ou desportos aonde as pessoas possam desfrutar seus tempos de lazer e relaxar.

As praias são lugares muitas vezes sujos e até hoje, após muitos anos, nenhuma administração pública nos Municípios do litoral sequer plantou coqueiros, árvores que dão côcos, dão sombra e beleza às praias e as protegem da erosão.

Para se viajar nas estradas, em caso de alguma dificuldade nos transportes, se os motoristas precisarem de assistência técnica para os seus carros, praticamente não existem oficinas ou outros meios que ajudem a resolver estas dificuldades.

As escolas ou colégios angolanas não são espaços muito atrativos para os filhos dos empresários pois não se utilizam das melhores tecnologias e dos melhores métodos de ensino.

Os Mídia públicos continuam a ser muito manipulados pelos interesses institucionais.

Os governos e administrações públicas continuam a achar que ainda estamos numa economia estatal planificada e que basta ordenar e logo tudo se resolve, se cumpre ou se executa.

Os países de economia de mercado centralizada foram todos à falência, União Soviética, Coreia do Norte, Cuba, Venezuela, Europa do Leste e tantos outros.

A China, economia planificada, não foi à falência pois quem desobedece às ordens do executivo corre o risco da pena de morte.

A China tem um padrão industrial medíocre, na média, apesar de também ter um outro lado de elevada qualidade, em seu país mas muitos dos produtos chineses comprados fora da China são muito fracos e de qualidade inferior.

As economias centralizadas são regidas por um padrão de mediocridade e incompetência e os cargos políticos são preenchidos através do compadrio.

Em Angola continuamos com uma economia muito centralizada e por aí não vamos muito longe.

Recentemente, um responsável politico angolano, num fórum económico numa das Provincias de Angola falou o seguinte :

“Agora , neste final de 2019, há muito dinheiro disponível para financiar novos projectos e uma parte deste dinheiro vem da Alemanha.

Os empresários agora facilmente podem financiar seus projectos e os empresários estrangeiros também podem vir investir em Angola pois as leis já permitem isso facilmente.

Os empresários que antes importavam seus produtos, agora podem fabricar em Angola esses mesmos produtos.”

Ou seja, este responsável, sem noção da realidade, pensa que basta clicar num botão e logo tudo se realiza.

Um empresário do comércio que antes importava tintas, ou materiais técnicos, ou carros, ou produtos químicos, etc.  que nunca foi industrial, agora simplesmente decide ser industrial e começar a produzir produtos complexos tais como tintas, em Angola.

O responsável politico não tem noção nenhuma que para ser empresário industrial são precisos muitos anos de aprendizado, é necessário muita experiência não só em administrar como em produzir e são precisos muitos anos de estudos nas tecnologias pois não basta querer ou ter acesso ao dinheiro.

O que se passou em Angola nos últimos quarenta e três anos em que alguns tinham acesso ao dinheiro mas quase ninguém soube construir uma empresa de sucesso, é um exemplo realista.

Não basta falar ou ter acesso ao dinheiro ou simplesmente querer ser empresário para isso ser possível.pois nem sempre querer é poder.

Angola precisa primeiro, urgentemente, fazer seu trabalho de casa bem feito, construindo-se as bases fundamentais económicas, sociais e ambientais onternas, para depois ser possível construir uma economia mais sustentada e haver realmente novos investimentos internos e externos..

Senão continuaremos em palestras, fóruns, seminários, debates, reuniões, continuaremos a desfilar com teorias mas sem sabermos construir uma realidade económica pois quem sabe faz em si, é exemplo, não basta conversa politica.

Nenhum empresário competente e responsável, nacional ou estrangeiro, vai querer investir ou continuar a investir nesta economia, se Angola não fizer primeiro o seu trabalho de casa.

E esse arrumar da casa tem de ser feito pelos empresários nacionais e pelos responsáveis políticos e institucionais, em conjunto, em harmonia, dar ordens politicas não chega.

Se o IDF (Instituto de Desenvolvimento Florestal) e o Ministério da Agricultura angolano não desenvolverem seu trabalho correctamente no dia a dia, na práctica, protegendo e desenvolvendo as florestas angolanas, como querem eles ensinarem aos cidadãos a protegerem e plantarem florestas ?

Não bastam teorias e politicas, é preciso uma prática real para depois se poder ensinar e exigir.

É necessário reconhecer que não somos bons e ter coragem para assumir esta realidade angolana, sem complexos,  pois a humildade é o primeiro passo para se aprender a ser sapiente”.
Valdemar Ribeiro
Enviado por Valdemar Ribeiro em 21/10/2019
Alterado em 22/10/2019
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