Valdemar Ferreira Ribeiro
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ANGOLA E O NEOCOLONIALISMO
ANGOLA E O NEOCOLONIALISMO

Estamos em 2021, século XXI e muitos angolanos morreram em defesa de sua identidade e luta pela sua suposta independência moral, física, económica, ambiental e social.

Não foi nada fácil assumir esta luta pessoal e nacional como também ir para as matas em defesa desse ideal, sabendo que a vida nessa luta era muito difícil em todos os sentidos, incluindo o afastamento da própria família e deixando esta muitas vezes à sua própria sorte.

Foi e é preciso muita coragem, ser guerreiro, ter uma consciência mais profunda de quem é e do que quer para tomar esta decisão de “ir prá mata” lutar pela sua dignidade e de sua família sabendo que esta com certeza ficaria sozinha em casa sem ou com poucos apoios, consciente de que a morte era um dos riscos mas tudo isso o motivou mais nessa luta e tanto foi assim que em 1975 Angola transformou-se numa nação pela força desses Samurais, inserindo-se num mundo global com seus próprios pés.

Para haver uma visão global mais abrangente no entendimento deste ensaio, é muito importante que, aqui e agora, se faça uma reflexão antropológica profunda  sobre quem foram os primeiros colonos planetários pois as sociedades humanas, os primeiros hominídeos, desenvolveram-se, segundo a ciência e comprovado através do DNA global humano, na região da África Austral, o chamado Australopithecus, visto que esta região era muito sustentável em alimentos e climas, os mares eram ricos em peixe, haviam muitos rios, o clima era excepcional, as terras muito férteis, etc. e são lógicas estas teorias cientificas já comprovadas.

Os seres humanos originais conseguiam sobreviver sem muitas dificuldades e à medida que cresciam em número foram naturalmente espalhando-se por África, pela Ásia, América, Europa e Oceania e foi natural essa expansão pois o ser humano é curioso por natureza e por vezes a natureza o obriga a palmilhar na descoberta e construção de novos caminhos.

Se os primeiros povos humanos eram Australopithecus, eram portanto negros pois o clima assim propiciava e porque a pele negra está melhor adaptada aos climas quentes e aos raios solares, é mais resistente e forte, então pode-se afirmar com total clareza que os primeiros humanos a colonizar o planeta foram negros, pode-se afirmar que os primeiros colonos são negros, e isso é motivo de orgulho e de satisfação para os descendentes directos destes povos originais.

Daí em diante, com o inicio da colonização planetária pelos povos Australopithecus, em função dos diversos climas e diversos ambientes, naturalmente estes povos descendentes adquiriram características físicas diferentes, na pele, no rosto, no cabelo, na altura, no falar, etc..

Com o desenvolvimento, sustentado ou não, da humanidade no planeta e o surgimento de povos com características raciais diversas, nos cinco continentes, povos com características físicas e culturais bastante diferentes na aparência, as sociedades humanas surgentes nestes novos espaços geográficos alguns del3s muito difíceis, tentavam impor-se umas às outras e até escravizando outros povos para seu próprio beneficio pois muitas vezes consideravam os outros povos como não iguais por serem diferentes dos seus, logo eram inferiores e ainda hoje é assim em muitos lugares demonstrando uma falta de desenvolvimento cultural sustentado. Foi natural este caminho humano, apesar de não desejado por aquelas pessoas, não são muitas ainda, que têm uma visão mais sapiente e profunda do universo, do mundo e em particular da humanidade.

Os colonizadores portugueses antes do século XV, viajando nas suas caravelas e com suas armas de pólvora, tecnologias marítimas e militares desenvolvidas na Ásia e levadas para a Europa, chegaram à costa africana mais ao sul e aportaram nas suas belas praias e já tinham consigo o conhecimento de que a escravatura era um modo de vida económico pois o escravo era também uma máquina de produção a ser explorada ao máximo para beneficio económico de seu proprietário e na visão destes escravagistas, consideravam que alguns humanos são superiores aos outros pois talvez “tenham nascido abençoados por algum deus e são filhos de reis” e o resto é plebe que veio ao mundo para ser detonada como raça inferior, hajam visto os “arianos” e os “apartheids” da vida.
Os colonizadores ao aportarem nas praias, mesmo tendo armas de fogo, certamente encontraram povos africanos em número muito superior ao seu e provavelmente não arriscaram invadindo simplesmente essas terras pois corriam risco de vida.

Por isso, deve ter havido muita cautela nessa aproximação física arriscada entre eeses povos, “estranhos” uns aos outros e, logicamente, pode-se concluir que a aproximação teve de passar pela autorização e concordância dos ditos “chefes tribais” ou seus representantes após uma troca de presentes ou valores económicos.

Sabendo os colonizadores portugueses que a escravatura era na altura um modo de vida económico com benefícios substanciais, estes portugueses viajavam para outras regiões do globo aonde isso era praticado por muitos povos, por exemplo na América, no Brasil, na Ásia, etc., certamente os portugueses ao aproximarem-se dos povos africanos devem ter desenvolvido esforços ”diplomáticos”  para “envolver” os chefes tribais ou seus representantes nesse negócio do escravagismo e foi assim que milhares de africanos foram presos, embarcados e levados para continentes longe de suas famílias.

Portanto, a escravatura em Angola e em outros lugares do planeta, só era possível com a participação de ambas as partes beneficiárias deste “negócio” humano, não foi apenas uma das partes a responsável por estes acontecimentos errados.

Posto isto historicamente, o mais importante é reconhecer esta verdade dos factos para que os povos descendentes tenham conhecimento e consciência sobre esta realidade e a partir daí terem um cuidado maior na construção de seu presente e seu futuro, sem complexos sejam eles quais forem. Todos, na maior parte das vezes, participam  nos erros e há que corrigir, é a lição.

Os colonizadores vieram com seus modos de vida económicos errados, escravizadores e extremamente consumistas pois seu intuíto era o ganho fácil e ganancioso, não vieram para um encontro e trocas culturais nem raciais, respeitando-se os valores culturais de cada um.

Foi imposta uma economia errada aos povos autóctones africanos que viviam em suas regiões de forma natural e com seus próprios modelos económicos e, se não fosse esta invasão, certamente ainda hoje poderiam estar a beneficiar disso.

Esta chegada colonial não trouxe benefícios sociais, ambientais e económicos aos povos que viviam nas suas regiões naturais, de uma forma geral, e alterou substancialmente seu “modus vivendi” pois viviam em grupos tribais, tranquilamente, e se utilizavam da natureza de forma correcta e tinham uma subsistência farta e feliz, pode-se deduzir.

Eram povos de boa aparência, saudáveis, felizes, normalmente em paz nas suas regiões pois as terras eram férteis, são até hoje, imensas, belas savanas e as populações não eram numerosas, o que lhes permitia não terem necessidade de lutar pela posse de suas terras.

Fosse ou não fosse assim, o correcto é cada povo desenvolver os seus próprios meios sociais e económicos, à sua maneira e se, com a globalização, achassem por bem alterar ou aceitar outros modos de vida económicos, sociais e ambientais, seria uma escolha própria e teriam tempo para reflectir e se adaptarem, supostamente, pois o futuro ninguém adivinha mas o certo é não invadir a casa alheia.

Por outro lado, os ditos responsáveis africanos ou seus representantes, ao perceberem que podiam ganhar economicamente com o escravagismo, muitos deles decidiram fazer isso e iam de lugar em lugar prendendo gentes mais novas de outras tribos e escravizado-os através da força bruta.

Estes responsáveis africanos escravagistas tiveram uma responsabilidade igual ou maior à do colono português.

É como numa guerra, o general ordena e manda matar seja quem for e o soldado aperta o gatilho da arma mas de quem é a responsabilidade maior?

Muita gente diz que é do general mas quando se aprofunda uma visão antropológica sobre quem é o ser humano, onde todos ou quase todos, queiramos ou não, somos iguais perante a natureza, todos nascemos e morremos da mesma forma e vamos para o mesmo lugar, isso é comprovado cientificamente, então pode-se afirmar que o soldado, ser humano igual ao general perante a natureza, é o maior responsável pelos seus actos pois a decisão de apertar o gatilho é individual mesmo que se busquem desculpas e alternativas diferentes para justificar e absolver o soldado.

Cada ser humano é, queira ou não, responsável por si, mesmo não tendo essa consciência e busque desculpar-se na justificação de seus actos.

Então, voltando ao caso do escravagismo por parte dos responsáveis africanos ou seus representantes, os factos confirmam que estes responsáveis escravizavam seus pares única e simplesmente em busca do ganho fácil sem importar as consequências espirituais, físicas, morais, sociais, económicas, ambientais na sua região, denotando-se assim que estamos perante seres humanos violadores do respeito.

O colonizador simplesmente não podia entrar sozinho nos espaços tribais africanos invadindo e, numa estratégia psicológica de domínio, começou a desenvolver a ideia do “cipaio” que nada mais era do que um soldado assimilado na cultura e que obedecia cegamente aos colonizadores e em seu nome podiam matar, roubar, abusar, violar, escravizar, etc., seus pares.

Após a luta pela independência de Angola, com a morte de milhares de angolanos em prol de sua própria liberdade, as sementes desse colonialismo não desapareceu de todo e o complexo de “cipaio” ainda é notório, basta um olhar mais atento, profundo e isento.

Os angolanos que lutaram pela sua liberdade, de todas as raças, e que acreditavam na sua independência e de seu país, muitos morreram mas conseguiram expulsar uma grande parte dessas sementes dos colonizadores mas nem todas foram eliminadas.

Angola conseguiu expurgar uma parte do colonialismo mas, neste novo mundo pós independência, vieram e continuam a vir, invadindo, exactamente como há centenas de anos atrás e até pior, os neocolonizadores, pessoas que representam países e que buscam explorar outros povos em seu próprio proveito, os chamados “mamadus”, eritreus, chineses, nigerianos, europeus, americanos, asiáticos, vietnamitas, russos, etc.. e que nestes novos países impõem seus modos de vida particulares, agressivos, muitas vezes fora da lei e muitos deles são protegidos pela corte dos chamados “marimbondos cipaios”.

Ou seja, lutou-se para eliminar um colonizador mas agora Angola tem de enfrentar os neocolonizadores e os angolanos tornam-se cada vez mais invisíveis economica e socialmente e até aceitando ser subalternos pois a visibilidade é de quem domina, manda e até escraviza de muitas formas e, muitas vezes, descumprindo a lei. É necessário observar que esta mesma situação está a acontecer em muitos países incluindo a Europa e Portugal também já é um exemplo disso em menor escala certamente mas cumprindo-se o ditado “o feitiço virou-se contra o feiticeiro”.

Este novo caminhar neste século XXI, agora não mais com um mas com variados neocolonizadores, está a acontecer em muitos países do planeta, mais nuns e menos noutros, em função de estarem mais ou menos atentos a este desenvolvimento, e os principais responsáveis são aquelas pessoas que não se importam de explorar e escravizar os seus cidadãos, aproveitando-se da inconsciência e ignorância destes, em prol exclusivamente de seu próprio beneficio económico principalmente, sem terem noção de uma sociedade humana mais desenvolvida, justa e equilibrada.

Na verdade, estes marimbondos são pessoas com espirito de cipaio, obedecem às ordens de quem os ordena financeiramente, são na realidade assimilados em todos os sentidos e não questionam nem refletem se seus filhos e seus descendentes serão ou não prejudicados no futuro ou no presente ao também viverem numa sociedade desequilibrada, gananciosa e egoísta, pouco desenvolvida.

E após estes mais de quinhentos anos de exploração e abuso colonial, com resultados extremamente nefastos para a nação angolana, neste século XXI há o resultado directo das acções dos agora denominados “marimbondos cipaios”, com milhares e milhares de crianças e jovens deambulando pelas ruas das cidades de Angola, de dia e de noite dormindo nas soleiras das casas e das pensões, agasalhados por um pedaço de cartão, à chuva que vem a molhar quando vem, batendo às portas dos carros na esperança de um pedaço de pão, muitas vezes vasculhando os tambores de lixo e lixeiras humanas à procura de seus sustento, muitos deles, crianças e adultos, indo parar nos cemitérios, num país potencialmente dos mais ricos do planeta, um país cujas riquezas naturais são de grande valor económico mas não parece haver fim à vista.

Quando se estacionam os carro nas ruas destas cidades de hoje, o normal é aparecerem dezenas de crianças, da mais tenra idade até adolescentes, de mãos estendidas a pedirem um pedaço do céu, uma côdea de broa mesmo que seja dura e velha, e muitos dos adultos pais destas crianças ficam na moita ao longe também à espera da côdea de pão... e somos obrigados a olhar tudo isto e a pouco ou nada poder fazer pois não podemos ordenar a nação nem ordenhar pois nossa consciência não o permite mas no nosso pequeno mundo privado temos de dar o exemplo, o melhor que podemos e sabemos, e alertar para a realidade que vivemos hoje em dia e que certamente não é auspiciosa.

Angola agora, com a invasão dos neocolonizadores, está a complicar-se cada vez mais, muitos angolanos estão a perder o seu próprio espaço político, geográfico, social, ambiental e económico e o futuro que vem aí não vai ser nada fácil pois a natureza também parece estar a dar uma resposta dura às alterações climáticas ordenadas pelos humanos.

Este ensaio sociológico pode parecer muito crítico mas não é esta a nossa intenção pois o que queremos, simplesmente, é alertar para um esforço maior na tentativa de desenvolver soluções urgentes na resolução deste imbróglio e juntos, todos, absolutamente todos os angolanos e com a colaboração de outros países não neocolonizadores, há alguns, talvez possamos construir um caminho mais equilibrado, é a esperança.

Angola precisa de pessoas comprometidas com um desenvolvimento sustentado que beneficie todos os cidadãos em geral, de todos os grupos, e “corrigir o que está mal e melhorar o que pode ser melhorado”.

Estes milhares e milhões de crianças angolanas e do mundo que divagam pelas cidades e vagam pelas ruas à procura de um pedaço de carinho do céu, de uma fatia de sorriso, de um brilho no olhar adulto, de um pão, de um abrigo, de um saber que lhes permita serem mais fortes, mais conscientes, mais exigentes, mais responsáveis, querendo inconscientemente encontrar uma alma que os albergue das intempéries desta vida aonde nasceram sem ninguém lhes perguntar se queriam ou não nascer aqui e agora, estas crianças são parte integral e profunda de nosso coração e de nossa mente e por isso este grito em nome delas pois elas não são responsáveis das acções não equilibradas e inconscientes dos adultos gananciosos e são as que menos voz têm para clamarem seus direitos, apesar delas cumprirem com seus deveres.

Quem convida e apoia a vinda de pessoas neocolonizadores para virem explorar seus países numa feroz ganância, sem importar os resultados desses actos nem os meios a utilizar, ilegais muitas vezes e até traficando drogas, ganhos económicos que são o sustento das máfias internacionais e locais e dos Daeshs da vida, essas pessoas são denominadaos cipaios, gente que desde há séculos escraviza e mata seus pares.

Valdemar Ferreira Ribeiro
Economista, empresário industrial, ambientalista
Valdemar Ribeiro
Enviado por Valdemar Ribeiro em 08/07/2021